Carnaval, afinal
Meu diarinho da folia
Na semana passada assinamos juntas um texto, ainda badbanizadas, e la Otra comentou “Vamos postar na véspera do carnaval sem falar dele”. E eu respondi: ‘Ou não’. Será que Benito na Sapucaí também não se reconheceu como nós no show dele? Desconfio que sim.
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Eu garoteei na sexta e quase queimei a largada: bebi mais do que percebi. Sem querer. Às vezes acontece quando você está feliz e rodeada de gente amada; me distraí. De ressaca física e moral, quase cancelei o sábado, mas entendi que não precisava me punir. Ainda bem: fui para a Terreirada, que é apenas o bloco mais bonito e poético do Rio de Janeiro.
Começa que é na Quinta da Boa Vista, esse parque carioca subestimado porém agradabilíssimo. A Terreirada tem o umbigo enterrado na cultura popular, em especial na cultura nordestina; é uma mistura desfile e espetáculo, celebração e culto, saci com boi, Nossa Senhora e Iansã, alegria e nostalgia, riso e choro da plateia e dos participantes — separados por uma linha mais imaginária que real. Cantos e cantigas simples, que você aprende de primeira, mas no final fica com aquela sensação de já conhecia, sempre soube. Desperta lembranças e emoções esquecidas e/ou escondidas. Pra mim, neta de nordestinos (de pai e mãe), soa como um bloco familiar e ancestral porque me leva para lugares onde nunca fui mas sempre estive. Nas palavras deles mesmos, é uma encantaria. Saí de lá energizada, plena, feliz. Eu borboleta, a cobra e o sapo.
No domingo o trio, agora fantasiado de buquê, foi marcar presença no Boitatá, uma de nossas mais antigas tradições carnavalescas. Muita música boa, como sempre, aquele clima gostoso e amigável do Boi, que faz o trio virar quinteto, sexteto e de repente temos uma turma de amigos de infância que se conheceu meia hora atrás, só na base de purpurina e alegria. Eu e azamigas conseguimos nos encontrar sem celular, porque segundo Dedeia, temos um radar de glitter, forjado durante muitos carnavais. Ficamos até o úlitmo acorde e, mais uma vez, fomos muito felizes.
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Deus descansou no domingo, e eu na segunda. Descobri que há uma razão para o carnaval ter três dias: é o que a gente aguenta. Quem esticou foram os xóvens e os baianos - uma coisa que já não sou e outra que jamais serei.
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Mas foi bom demais descansar sem angústia nem culpa, viver o carnaval no meu tempo, a sorte de um carnaval tranquilo, como talvez dissesse Cazuza. Sem correria, quatro blocos por dia, excessos de todo tipo. Sim, o corpo não aguenta mais a maratona, mas a alma quer? Não, obrigada. Tenho um nome a lazer - e também ao prazer. Sem pressa. Alguns dirão que é a idade, eu suspeito que seja a experiência - estou certa que são coisas diferentes.
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Na terça estreiei no “É pequeno mais é meu”, que obviamente me ganhou no nome - embora eu, como minha filha, “nunca gostei de pouquinho”. Mas é que não resisto a uma descoberta, e resisto menos ainda a uma excelente batucada, que foi o que apresentou essa promessa da Andrade Pertence. Ou pode ser que tenha sido só esta vez, e quem viveu, sambou. Depois, uma passada no bar pra molhar a palavra com os amigos de muitos carnavais e de todas as estações. E dessa vez bebendo como uma mocinha, sem perder o juízo.
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Como senti falta do Claudinho, meu parceiro carnavalesco de tantos blocos, desfiles, histórias, fantasias!... Durante o carnaval minha mãe completou 1 ano de partida pro Orun, e gosto que pensar que ela morreu em fevereiro pra que eu nunca ficasse triste demais; ela que sabia que o Carnaval sempre viria me acudir. Este foi, portanto, um carnaval também de saudade e melancolia, sentimentos que, na verdade, sempre estiveram presentes no Reinado de Momo, mas que a gente conseguia reparar menos. Brindamos na terça-feira gorda à enorme saudade dos foliões ausentes, e depois continuamos brincando, em memória deles.
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Sobre as escolas de samba: esse ano não me pegou. Sabia de tudo meio por alto, vi uma coisa ou outra. No dia da Viradouro, minhas analistas de carnaval altamente especializadas me alertaram para o que foi o desfile. Assisti e achei tudo lindo, Ciça Rei da Porra Toda e passei a torcer por ele. Foi daqueles desfiles que se fazem na avenida: não havia grande expectativa sobre ele, até alguma desconfiança, mas na hora arrebatou a todos, ganhou as arquibancadas e até quem viu pela TV. Uma vitória justa e incontestável, aplaudida imediatamente por todas as escolas de samba no dia da apuração, uma cena que não me lembro de já ter visto. O samba venceu, e todo mundo entendeu isso.
Depois fiquei achando que a gente podia ter desconfiado que funcionaria um samba-enredo que começa dizendo: “Se eu for morrer de amor, que seja no samba”- uma lindeza, né? E um enredo que teve a sagaz ideia de “não esperar a saudade para cantar”.
Porque se deixamos passar o tempo, depois só nos resta lamentar e pensar que deviamos ter tirado mais fotos…(hahahaha, não resisti a fechar o círculo, Sócia; no próximo evitarei menções a Benito, prometo!)





Que texto lindo e que menção pungente e poética a Dona Mamãe e nosso folião tão querido e de quem sentimos tanta falta.
Achei sábia a decisão de ir sambar. Idade e experiência são mesmo coisas diferentes. Beijos, sis!